6 de novembro de 2008

Policiamento da Atenção na Trilha

Resolvi escrever este texto como complemento ao texto do Alemão sobre "Policiamento da Atenção" no trânsito. Ultimamente tenho percebido um aumento na quantidade de acidentes na trilha, felizmente não muito graves, mas que geraram inevitáveis idas ao hospital, raios-x, ressonâncias, dias "de molho" sem pedalar etc.

Entendo que na maioria dos casos esses acidentes poderiam ter sido evitados se o biker estivesse mais atento a alguns elementos importantes do passeio, como:

- as orientações do líder do passeio;
- o terreno da trilha;
- o trânsito de autos e animais;
- os colegas de passeio;
- o seu próprio condicionamento físico;
- a sua bike;
- o horário do dia e as condições de clima.


Sei que é difícil tentar analisar esses elementos de forma isolada, mesmo porque lá na trilha tudo acontece ao mesmo tempo e de forma muito rápida, mas talvez se atentando a um ou dois elementos mais críticos você possa diminuir o risco de acidentes.

As orientações do líder

O líder do passeio é aquele (ou aquela) biker que conduz os demais. Ele conhece o percurso, os obstáculos, os pontos de parada etc. Ele tem informações importantes que fazem a diferença no quesito segurança. Portanto, essa pessoa deve ser ouvida, entendida e, se necessário, questionada.

É muito comum vermos bikers desatentos às orientações do líder. Isso é normal, mesmo porque estamos ali para relaxar e curtir, só que a falta de atenção aqui pode aumentar o risco de acidentes.

Quando o líder disser que há, por exemplo, erosões muito profundas na trilha ou terreno escorregadio, você deve avaliar o risco e pensar como irá agir. Não deixe para pensar na momento em que perceber o obstáculo na trilha, pode ser tarde demais.

O terreno

Em se tratando de mountain bike, o terreno é o que dita o nível de emoção (e adrenalina) dos bikers. Não há nada mais gostoso do que a sensação de superar terrenos difíceis. É uma vitória pessoal. Mas o terreno é também o maior responsável pelos acidentes entre os bikers. As situações são infinitas, então não tenho a pretensão de esgotá-las aqui, mas dá para dizer que a grande maioria dos acidentes acontece quando a bicicleta escorrega ou pára de repente.

No primero caso, a bike pode escorregar porque o terreno está liso (lama ou limo) ou possui pedras soltas que funcionam como as bolinhas de gude (se você não sabe o que é uma bolinha de gude, meus pêsames, mas você não teve infância). Então, o correto é diminuir a velocidade, pois se o tombo for inevitável, pelo menos ele será numa velocidade mais baixa. Não trave a roda traseira, nem use o freio dianteiro com muita força, senão a bike pode responder de forma rápida e inesperada.

No segundo caso, a bike pode parar em pedras altas, buracos, raízes salientes ou outros obstáculos relativamente grandes. Uma mountain bike com garfo de suspensão pode superar a maioria dos obstáculos da trilha sem problemas. Então, não se preocupe tanto esses obstáculos ao ponto de ficar olhando para sua roda dianteira. Tenha seu foco lá na frente, a 30 ou 50 metros, e perceba obstáculos que realmente possam parar sua bike. Deixe os obstáculos menores e mais próximos por conta da sua visão periférica.

Há muitas formas de superar obstáculos grandes com a bicicleta, portanto não vou abordar isso aqui, mesmo porque o tema é a atenção.

Trânsito de autos e animais

Muitas vezes a "trilha" não é uma trilha, mas sim uma estradinha de terra no meio de um bairro rural. Há, portanto, trânsito de carros e motos. Quando o veículo se aproxima por trás, ou seja, sem que você possa vê-lo, preste atenção no trajeto que você vai usar para sair da frente do veículo. Nos (violentos) dias de hoje não vale a pena medir forças com os motoristas estando em cima de uma bicicleta. Salve sua pele! Saia da frente de forma segura e rápida. Se for o caso, pare a bicicleta. Em situações onde o veículo é um caminhão ou ônibus o deslocamento de ar desses veículos pode fazer você perder o controle da bike.

Quando o veículo estiver vindo na sua direção no sentido oposto (frente a frente), tente sinalizar para onde você vai. Diminua a velocidade e use as mãos. A situação mais perigosa é quando você tem à frente trilheiros de moto, pois para eles, assim como para nós, não há uma "mão" certa na trilha. Pedalamos tanto do lado esquerdo como do direito da trilha. E eles operam da mesma forma. Portanto, ao avistá-los diminua ao máximo a velocidade da bike e sinalize para onde você vai. Os trilheiros têm sua atenção no horizonte, então conseguirão perceber a sua sinalização.

Quanto a animais na trilha, o universo é muito grande também. Bois e vacas costumam se assustar com as bicicletas e sair da frente, mas há exceções. Bovinos reagem ao movimento do grupo, basta um fugir para que os demais fujam também. Cavalos são inofensivos se você se aproximar pela frente. Se por trás, cuidado, pois se o animal for mais medroso ele pode instintivamente dar um coice.

Abelhas são muito sensíveis ao movimento e a cores. Apesar da nossa preocupação maior ser com um ataque de enxame, uma simples abelha pode desviar nossa atenção na trilha e provocar um acidente. Ao ser picado, NUNCA PARE A BICICLETA. Concentre sua atenção na trilha e continue pedalando por no mínimo 100 metros. Veja se não está sendo seguido pelo enxame, então pare com segurança. Algumas abelhas podem chegar a 40km/h durante um ataque, portanto, todo cuidado é pouco.

Colegas de passeio (aka Bikers)

Por mais que haja bastante espaço para todos na trilha, é muito comum ouvirmos casos de bikers que se chocaram com outros e causaram acidentes sérios com capotamentos e perfurações (guidão e pedal).

Fique atento a quem está na sua frente e principalmente a quem vem de trás. Por mais que você esteja rápido, olhe antes de mudar de direção ou frear bruscamente. Eu já fui "atropelado" por um colega de bicicleta porque parei sem avisar, e já vi outros se chocarem por pura falta de atenção.

Em trechos de alta velocidade tente ir o mais reto possível. Não fique mudando de lado para dar passagem aos outros bikers mais rápidos. Deixe que eles desviem de você. Nos trechos técnicos (escorregadios ou com obstáculos) evite conversar ou dar dicas para os menos experientes. Concentre sua atenção naquilo que você está fazendo.

Também fique atento a comentários dos colegas sobre seus equipamentos. Comentários do tipo: "Hoje tô sem freio", "Minha corrente tá escapando", "Não consigo tirar o jogo da minha mesa" podem indicar risco de acidente se você estiver na frente ou atrás desse colega.

Seu condicionamento físico

Mountain bike é um esporte que exige bastante do físico de quem pedala. Mesmo que seja um passeio curto sem subidas, avalie suas condições antes de fazê-lo. Fique atento a dores em regiões próximas das áreas de contato com a bike: selim, guidão e pedais; pois essas são as mais exigidas no pedal. Uma pequena dor nas mãos pode se transformar na impossibilidade de frear numa descida depois de algumas horas de pedal. Fadiga nas pernas pode significar um tombo para trás numa subida mais íngreme.

Quanto a fadiga geral, o famoso e temido "prego", é importante que você conheça seu corpo para saber evitar esse problema. Da mesma forma que os motoristas de ônibus são obrigados a descansar a cada tantas horas de direção, você deve fazer o mesmo, ainda mais estando sobre duas rodas. Não digo que você pode "dormir no guidão", mas pode sim não ter forças para reagir com a bike num momento crítico e evitar um acidente.

A sua bike

Produtos de qualidade não quebram de uma vez. Eles vão apresentando alguns sinais de desgaste com o passar do tempo, e é sua preocupação estar atento a eles.

A verificação de itens como freios, transmissão e pneus antes do passeio é fundamental e obrigatória. Freios que não freiam, marchas que não "entram" e pneus com pressão inadequada aumentam muito o risco de acidentes sérios na trilha.

Veja esse vídeo (em inglês fácil de entender) sobre como regular seus v-brakes. São 2 minutos que fazem toda diferença.



Há muita discussão (e controvérsia) sobre tipos de pneus e o nível de pressão adequada. Se você for iniciante e não estiver disposto a trocar de pneu a cada trilha, compre um par que seja "multi-proposta", ou seja, um modelo que sirva tanto para lama como para chão seco. Já a pressão ideal varia de acordo com o seu peso e com as condições do terreno. Fique atento se a banda do pneu está totalmente em contato com o solo. Quando o pneu está muito cheio apenas uma parte da banda fica em contato com o solo, diminuindo sua aderência e comprometendo a estabilidade da bike.

A situação mais perigosa e que exige total atenção é quando se muda de terra para asfalto no meio do passeio. O pneu de trilha gruda menos no asfalto do que na terra. Se o asfalto estiver molhado, com óleo ou com os dois juntos, tome cuidado e diminua a velocidade. Evite mudar bruscamente de direção, ou a roda dianteira poderá escorregar de uma vez.

A famosa "Estrada da Manutenção" aqui em São Paulo ilustra bem a necessidade de atenção ao terreno e à bike. Ao chegar no início da descida da serra é difícil dizer se choveu anteriormente ou não. O asfalto liso com limo, se estiver molhado, representa um grande risco, ainda mais se sua bike está com pneus de terra. Avalie a situação e trabalhe a favor da sua segurança.

Horário e clima

O horário da trilha indica, na maioria dos casos, a quantidade de veículos transitando no local, a presença de calor que diminui sua capacidade de concentração e reflexos em cima da bike e, a ansiedade do grupo. Muitas vezes a vontade de chegar logo ao destino e pressões de horário dispersam a atenção do biker. Portanto, controle o seu tempo para não aumentar o risco de acidentes.

Atenção ao clima está relacionado basicamente à temperatura e à chuva. Muito calor desgasta o corpo do biker, que pode fraquejar e cair. O frio endurece a musculatura e favorece a incidência de cãibras ou lesões. Já a chuva torna o piso mais escorregadio e pode diminuir a eficiência de alguns freios e pneus. Fique atento a essas condições e avalie como o conjunto bike/biker poderão ajudá-lo a diminuir o risco de acidentes.

Como dito anteriormente, a idéia aqui não é esgotar o tema "atenção", mas sim expor alguns elementos básicos que fazem a diferença na trilha. Capacete, luvas e óculos? Sempre. Se for iniciante: cotoveleiras e joelheiras.


foto: Santa Cruiser

Bóra pedalar!

10 comentários:

Anônimo disse...

ta aprendendo hein Rodolfo! show de bola o texto. Muito interessante e importante o tema da Atencao q o proprio Alemao jah levantou.
Imprudencia associada com negligencia e um pitaco de impericia e a cagada ta armada!!!

abs
German

luciana pinsky disse...

Gostei, Rodolpho, muito bom. E já que está no pique... sabe o que sinto falta? Aprender a cair. Já conversei com o German uma vez sobre isso. Deve haver jeitos "melhores" de cair, dicas para que se o pior acontecer que ele não seja tão ruim assim...
beijos,
Lu Pinsky

HeloWiza disse...

Rodolpho, show de bola!! Digno de quem faz treinamentos!!! Agora só falta um videozinho mostrando como cair para machucar menos! rsrsrsr. Se quiser eu seguro a camera enquanto vc cai ;)
PARABÉNS!!!

Rodolpho Arruda disse...

Hello Wiza!

Obrigado pela visita!
Vamos pensar num jeito de fazer esse vídeo ai. Será inédito no universo sideral.

bjs

Alemão disse...

Caramba! o que não faz um tombo...
Muito bom Rud's estamos priorizando a segurança sempre e a melhore forma de fazê-lo é registrando esses pensamentos.
Parabéns
Alemão

Anônimo disse...

Meus parabens...pq nao adianta a gente reclamar e brigar com o colega biker...é necessario sempre estarmos atentos a tudo e vc conseguiu expressar isso muito detalhadamente, cara vc nao esqueceu praticamente nada...ta valendo um manual já...rsrs. E pensar que comentar sobre este assunto ja me gerou ate uma mediação no grupo de discussao no meio do ano...
CONTINUA ASSIM, espero que sirva de alerta para todos nós

besitos
Jane

3o.set disse...

Muito bom, Rod, um acidente nao causa somente dano físico ao biker , mas envolve todo o grupo depois. Isto o participante sempre deve ter em mente. Abr, Jurgen

Carol disse...

Ro, AMEIIII, o seu texto, vc consegue esclarecer e detalhar muito bem.PARABÉNS!!!
Tenho consciência, que a falta de controle emocional, pode acarretar num acidente, foi exatamente assim que eu me vi naquela descida, com muitas pedras e logo a frente uma curva . Infelizmente, eu só pensei em segurar a bike, mas como começou a derrapar, não tive calma, para soltar um pouco o freio e assim realinhá-la.
Como o desespero foi maior, não economizei freio e a queda foi inevitável.
Juro que numa próxima, tentarei incorporar todas as suas dicas ou algumas delas para me sair bem.
Bjs e obrigada.
Carol.

Herik disse...

preciso melhorar minha bike com freios melhores e usar cotoveleiras e joelheiras.
Mas já reparou que quase não existem joelheiras e cotoveleiras em lojas de bike?

Rodolpho Arruda disse...

Vc tem que procurar nas lojas que atendem o pessoal que faz freeride, porque ai vc pode comprar joelheiras e cotoveleiras para quem pedala (vide foto no posting). Tem gente que usa equip de proteção de outras modalidades, mas ai não é adequado... esquenta demais, prende o corpo etc.