28 de março de 2009

Meditações Metafísicas de Descartes


"Mas o que é que sou então? Uma coisa que pensa. O que é uma coisa que pensa? Isto é uma coisa que duvida, que afirma, que quer, que não quer, que imagina e que sente. Por certo não é pouco se todas essas coisas pertencem à minha natureza. Mas porque não lhe pertenceriam? Não sou ainda este mesmo que duvida de quase tudo, que, não obstante, entende e concebe certas coisas, que assegura e afirma serem só essas verdadeiras, que nega todas as outras, que quer e deseja conhecer ainda mais, que não quer ser enganado, que imagina muitas coisas, por vezes até a despeito de que eu tenha e sinta também muitas delas, como que por intermédio dos órgãos do corpo? Há algo nisso tudo que seja tão verdadeiro quanto é certo que sou e que existo, ainda que sempre dormisse e que aquele que me deu o ser se servisse de todas suas forças para iludir-me? Há algum desses atributos que possa ser distinguido de meu pensamento ou que possam dizer ser separado de mim mesmo? Pois é por si tão evidente que sou eu quem duvida, entende e deseja que não é necessário acrescentar aqui nada para explicá-lo. E certamente tenho também a potência de imaginar; pois, ainda que possa acontecer que as coisas que imagino não sejam verdadeiras, não obstante essa potência de imaginar não deixa de estar realmente em mim, e faz parte de meu pensamento. Enfim, sou o mesmo que sente, ou seja, que recebe e conhece as coisas como que pelos órgãos dos sentidos, porquanto de fato vejo a luz, ouço o ruído, sinto o calor. Porém, dir-me-ão que essas aparências são falsas e que durmo. Que seja assim; todavia, pelo menos, é muito certo que me parece que vejo, que ouço e que me aqueço; e é propriamente o que em mim se chama sentir, e isso, tomado precisamente assim, nada mais é do que pensar. Daí começo a conhecer o que sou, com um pouco mais de luz e distinção do que antes."

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