5 de março de 2009

Saint-Clair, o perpétuo

Kezo entrou no Grupo Nova Era há 3 meses. Rapaz moreno claro de média estatura, bastante simpático. Logo percebi que não era de São Paulo pois seu sotaque do nordeste não lhe deixava mentir. Publicitário de formação, músico baterista por paixão, foi recém aprovado no vestibular da UNESP, onde estudará música nos próximos anos.

Kezo, assim como outros iniciantes do grupo, soube aproveitar os treinos para iniciantes das terças-feiras. Aluno assíduo, nunca faltou a uma aula minha e sempre se empenhou ao máximo no entendimento do aikido. Kezo é um aluno de uma única explicação, pois com ela já sai fazendo bem feito o que lhe foi pedido. Dono de uma educação física aprimorada, conquistada através do estudo da percussão.

Passados alguns meses desde seu início nos treinos, Kezo viu-se nesta semana frente ao desafio de seu primeiro teste. Era o exame de 6o kyu, uma verificação feita antes do exame de 5o kyo, que efetivamente promove o aluno faixa branca para a faixa amarela. Em seu exame Kezo impressionou a todos com sua técnica e serenidade nos movimentos. Uma demonstração impecável.

É costume na nossa academia que os instrutores assinem os diplomas dos futuros promovidos. Então lá fui eu assiná-los. De repente me deparei com um nome que não conhecia: Saint-Clair. Perguntei a minha mestra sobre ele, e ela me respondeu: "O Kezo!".

Kezo chama-se, na verdade, Saint-Clair. E como fiquei muito curioso a respeito, já que até então nunca havia conhecido alguém com esse nome, fui conversar com o próprio Kezo..

"É uma longa história!", disse ele. Seu avô por parte de pai era funcionário do Banco do Brasil lá na década de 1940, e seu trabalho era desbravar o interior nordestino em busca de oportunidades de negócio para o banco. Em uma de suas muitas viagens conheceu um sujeito de nome Saint-Clair, um missionário francês que havia contraído doença séria aqui no Brasil e que por isso estava a beira da morte. Seu avô então cuidou de Saint-Clair, dia após dia por muitos meses. Não era enfermeiro, muito menos conhecia medicina, mas utilizou todos os meios que dispunha para salvar o estrangeiro. Era conhecido como "aquele que cuidava de Saint-Clair", até que um dia seu apelido passou a ser Saint-Clair. Deste ponto em diante a história do francês pára e dá lugar a um outro Saint-Clair, o brasileiro Saint-Clair, que por sua vez prosperou em seu ofício, passando a ser um homem ainda mais admirado onde vivia.

Anos depois nasceu seu primeiro filho, também Saint-Clair, que cresceu em Jacobina, Bahia. Casou-se e teve um filho, também batizado Saint-Clair em homenagem ao renomado avô. Este último Saint-Clair é o mesmo que treina comigo, meu aluno, bravo aluno de sangue nordestino e nome francês.

Depois de contada a história fiquei com ela ecoando na cabeça por um bom tempo. Kezo, seu apelido desde pequeno, perpetua a história de Saint-Clair há três gerações. Conta sua história em três tempos, a história de Saint-Clair, o nome nascido da benevolência e que através ela se perpetua entre homens de bem.

Saint-Clair, o missionário, o bancário, o publicitário e agora o músico aikidoísta. O que o futuro lhe reserva? Não sabemos, mas quem sabe um dia o próprio Kezo nos conte em primeira mão por onde anda Saint-Clair.

2 comentários:

kezo disse...

Rodolpho,
obrigado pelo texto! me tocou muito, pois a bondade foi sempre algo muito presente tanto em meu avô, como em meu pai. Acredito que esse foi o grande legado deles, o qual procuro seguir. Quando li o texto, era como se você os conhecesse. Mas é assim, bondade atrai bondade, a lei básica do universo. Obrigado também pela precisa instrução no Aikido, algo fantástico que aconteceu na minha vida, e que pretendo respeitar e preservar até quando me for permitido. Um abraço.
Kezo(Saint-clair)

Cyro disse...

Sinto-me irmanado à pessoa que deu ensejo criativo a esta bela narrativa. Pela amizade, e pela referência do sertão baiano, parte deste vasto estado de múltiplas identidades. Pois o sertão, mais precisamente a cidade de Serrinha, é de onde vêm a minha família materna e a de Kezo. Kezo que conheci baterista, e hoje me encanta como escriba, homem da mais alta estirpe no trato com idéias e sentimentos.

Fiz Judô quando pequeno, o que não é suficiente para saber da arte do Aikidô. Só sei que é bom, pelo que leio aqui, entre o mestre e o aluno.

Abraços.

Cyro