27 de maio de 2010

Um Brevíssimo Ensaio sobre o Exagero na Simplicidade

Hoje é quinta-feira. No começo da semana fiz minha limpeza costumeira de feeds inativos no Google Reader. Percebi que assino uma quantidade razoável de blogs sobre “simplicidade”, “frugalidade” etc e tal. Comecei a me interessar sobre esse tipo de conteúdo depois que li o livro “Devagar” (Slow em inglês), que trata justamente de pequenos movimentos sociais liderados por pessoas que buscam melhorar sua qualidade de vida em um mundo supostamente muito “acelerado” ou “complicado”. No caso do livro, a ideia é que devemos diminuir a velocidade das nossas atividades diárias, permitindo assim desfrutá-las melhor. Ou seja, enquanto o mundo prega que “quanto mais velocidade, melhor”, muita gente pensa o contrário, quanto menos, menor.

Voltando aos blogs e feeds, tem muita gente se dedicando a escrever sobre como é possível viver somente com meia dúzia de coisas. Algo como quatro camisetas, duas calças jeans, um sapato e assim por diante. A ideia é reduzir ao máximo as posses, a velocidade, e principalmente a “complexidade” da vida.

Fiquei pensando no que poderia ter estimulado essa mentalidade. É claro que não há resposta pronta, até mesmo porque não é um tema “simples”, muito pelo contrário. Qualquer aspecto da vida de hoje em dia deve ser visto como resultado de vários fatores. Nem mesmo as crianças acreditam mais que “uma coisa leva a outra”. Os economistas e sociólogos comentam já há muito tempo sobre sistemas econômicos onde para cada resultado há inúmeras causas. Viver hoje em dia é exercitar essa visão sistêmica que não se intimida com a complexidade das coisas, ela as aceita como realidade.

Será que o homem do campo vive uma vida “simples”? Não sei. Aliás, de que homem e de que campo estamos falando? O conceito de “simples” aqui é isolado ou é produto da comparação da vida no campo com a vida na cidade? Será que a vida foi, é, e sempre será “simples” para quem nasceu e cresceu fora da cidade? Suspeito que não, justamente pelo caráter sistêmico dos nossos tempos. Por mais que o cidadão viva no campo, ele depende em boa parte de quem vive na cidade. Ele depende de material de construção, sementes outros bens de produção que existem por conta do trabalho (e vida) da gente da cidade. O que dizer então da gente da cidade em si?

A gente da cidade nasce em um ambiente competitivo. Óbvio, não? Quantas vezes você já não leu isso? “Estamos vivendo tempos de extrema competição em ambientes turbulentos e voláteis”, blá blá blá. Esse é o começo do argumento. O final – pelo menos o final que eu gosto – é que só se sobrevive na competição fazendo uma coisa bem feita: estratégia; e para isso precisamos fazer aquilo que mais nos diferencia dos outros animais da Terra: pensar. A força do pensamento nos permite aplicar inteligência para resolver problemas complexos que influenciam o nosso desempenho competitivo. Infelizmente só 5% da população consegue ser competitiva sem pensar muito. Mas estes, com certeza, têm a seu lado outras pessoas pensando por eles.

Não vamos pensar que a competição está apenas no mercado de trabalho, ela está em todo o lugar. Competimos por atenção entre familiares, por um lugar sentado dentro do ônibus, por um ingresso de teatro na primeira fila, por mais poder de barganha na hora de trocar de aparelho celular em promoção. São tantas as estratégias, regras, atalhos, barreiras que muitos acabam perdendo mais do que ganhando; ou pelo menos pensam assim. Daí a necessidade de reduzir a quantidade de situações de competição. A busca pela simplicidade é na verdade uma busca pela “não-competição”, pela chance de não amargar a derrota. Ter meia dúzia de coisas diminui nossas chances de sermos comparados com algo ou alguém que tem mais ou melhor. Mas será que vale a pena tanto isolamento? Será que vale a privação de termos o que queremos ter?

Minha opinião sobre competição é: não pode-se vencer sempre. Então aceito a derrota já por premissa. Em alguns momentos vou perder mais, em outros menos. Em outros ainda vou ganhar e, possivelmente, em outros, vou ganhar muito mais ainda. O importante é continuar competindo, aceitando novos jogos – ou desafios, se preferir... - abraçar problemas complexos e aprender com eles para ganhar inteligência que será usada em problemas futuros. Quem disse que errar é perder? Muitos times erram, sofrem com o erro, mas ganham no final. Por que? Porque foram inteligentes, aprenderam com seus erros e com a situação que lhes foi imposta.

Viver numa cidade “a mil por hora” com a agenda cheia e resolvendo problemas é um privilégio! Privilégio que permite a construção de coisas novas para si e para os outros. Aliás, nada me tira da cabeça que isso sim é viver. Querer fazer menos ou ter menos é, para mim, um desperdício de potencial. Desde criança somos estimulados a competir em vários níveis. Por que agora não deveríamos? Por que essa necessidade de não competir? Não sei quanto a você, mas eu não gosto de ficar parado, estático ou estabilizado. Talvez os defuntos gostem.

Simples? Não! Complexo? Sim!

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