1 de maio de 2011

O que a Indy tem a aprender com a arquitetura de sistemas

A segunda edição da Indy 300 no Brasil foi um fiasco, e não foi culpa da chuva.

Diferentemente da maioria das provas de rua, a "pista" da Indy em São Paulo foi construída com base em um projeto de engenharia. O percurso foi estudado, elaborado e construído sobre as vias públicas da cidade, em um trabalho onde se espera o mínimo de cuidado em relação a pontos de acúmulo de água, drenagem etc. A chuva é um fenômeno cotidiano no automobilismo mundial. Na Inglaterra, uma das potências mundiais do esporte, chove quase todos os dias. A maioria das provas começa ou termina com a pista molhada. E isso ao longo dos anos gerou conhecimento nas pessoas que organizam o show como um todo. Regras básicas no projeto das pistas e na organização das provas garantem a segurança dos pilotos e a continuidade do espetáculo.

O problema não foi a chuva, mas sim um grosseiro erro de projeto na pista, a chicane no final da reta de largada. Nada de errado em se ter uma chicane ali, mas o desenho da chicane não incluiu área de escape na segunda perna do "S". Foi feita uma generosa e correta área de escape na entrada da chicane para isolar os pilotos que não conseguissem frear no final da reta, mas foi omitida a contra-parte dessa mesma área de escape na saída do "S", e o resultado foi visível para todos: carros empilhados no muro de proteção.

Se houvesse uma área de escape na saída do "S" o espetáculo provavelmente teria continuado por mais tempo sem interrupções e os brasileiros não teriam sido vitimados nas colisões que ocorreram ali, seus carros teriam deslizado dentro da área de escape a uma velocidade relativamente baixa, permitindo o retorno à prova.

Conclui-se então que apesar de todo o esforço da organização, o sucesso do evento dependia de uma condição muito específica: pista seca na chicane. Quando um sistema apresenta essa característica dizemos ele tem um "ponto único de falha", ou single point of failure, ou seja, apresenta um componente crítico cuja falha pode comprometer o sistema como um todo.

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ponto_%C3%BAnico_de_falha

Os arquitetos de sistema exercitam a identificação, avaliação e gestão do risco de pontos únicos de falha no dia-a-dia. Discutem a instalação do novo servidor, a reconfiguração do roteador, a redundância da estrutura de backup/restore entre muitos outros. A pior situação para um arquiteto de sistema é ver o seu sistema fora do ar por conta de um "detalhe".

Voltando à Indy, o "ponto único de falha" vitimou a todos. Uma simples curva, um trecho de 30 metros de extensão dentro de um circuito de vários quilômetros paralisou a prova inteira.

Daqui 15 minutos a prova será reiniciada. Crê-se que a diminuição da chuva permitirá o retorno dos carros à pista. Mas a chicane continua lá...

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A foto é do Thiago Bernardes do UOL.

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