9 de janeiro de 2013

"Favor Rebobinar a Fita"

Quem não se lembra daquelas plaquinhas colocadas estrategicamente atrás do balcão das vídeo-locadoras (tem hífen?) com a frase: "Favor Rebobinar a Fita"? Para quem não se lembra ou não viveu essa época, rebobinar a fita era um pacto cavalheresco, uma gentileza que o cliente da locadora fazia à mesma e ao próximo cliente interessado em alugar o título. As fitas eram entregues rebobinadas, claro! Era só colocar aquele cartuchão no video cassete (sem hífen?) e apertar o "play". Não existia coisa mais chata do que rebobinar uma fita VHS. Quantos casais não partiram para as preliminares enquanto rebobinavam uma cópia de “9 e ½ semanas de amor”? E se fosse um filme da trilogia “O Poderoso Chefão” que quem alugou por último deixou a fita correr até o final dos créditos? As vezes a pessoa fazia isso só de sacanagem mesmo. Tipo: “Vou fazer a família inteira do cara tomar banho antes de assistir essa fita”. E os barulhos típicos da “rebobinada”? Tinha gente que só de ouvir aquele barulho já sabia a velocidade do cassete. Se estava terminando ou não. Ou, pior, se ia demorar para cacete. E falando em demora, quantas vítimas essas fitas já não fizeram? Quantas reuniões perdidas, quantos vôos perdidos, quantas provas, vestibulares, etc já não foram perdidos porque o chefe da família, o dono do carro, tinha que: 1) rebobinar as fitas (sim, plural, eram várias), 2) levar as fitas até a locadora. Era um processo demorado e perigoso. Os proprietários das locadoras escolhiam o ponto nas principais vias de ida ou volta do trabalho, ida ou volta da escola já que, obviamente, os clientes precisariam rebobinar as malditas fitas e correr desesperadamente no trânsito para não chegar atrasado no trabalho. Entre chegar atrasado numa reunião de negócios ou levar uma multa na locadora por não ter rebobinado a fita, ficava-se com a primeira opção. Aquela imagem da família perfeita, a família de Doriana tomando café da manhã toda reunida, só existia depois das fitas estarem devidamente rebobinadas. Quem tinha uma Blockbuster perto de casa era considerado felizardo não porque o acervo de filmes era melhor ou maior, mas porque as lojas tinha um “quick dropbox” - ou algo assim – onde o cliente podia literamente jogar as fitas para dentro da loja antes mesmo dela abrir as portas. O que não era o meu caso, infelizemente. Eu tinha que levar as fitas devidamente rebobinadas até a locadora que ficava na esquina da minha casa. Lembro bem. Ela não tinha nem estacionamento na porta. O cliente tinha que ir a pé, subir a fúnebre escadinha de carpete preto e sentir aquele forte cheiro de plástico das centenas de fitas e capas que ficavam lá dentro. Logo ao entrar você já via uma placa branca com letras garrafais dizendo: “Rebobine suas fitas e ganhe pontos. Evite multas”. Céu e inferno na mesma comunicação. Se você for bacana e rebobinar a fita, ganha pontinhos virtuais, se não rebobinar, vai ter que por a mão dentro do bolso e tirar dinheiro de verdade. Eu sempre levava as fitas rebobinadas, claro, mas mesmo assim não conseguia escapar de uma cena bizarra que via com frequencia. Eu colocava as fitas em cima do balcão e esperava para ser atendido. Quando o atendente pegava as capas, ele não as abria de imediato, mas me perguntava olhando no fundo dos meus olhos: “Você rebobinou essas fitas?”. Depois de engulir sêco e quase mijar nas calças, respondia: “Sim”. Ai ele abria as capas, uma a uma, para conferir se as fitas estavam mesmo rebobinadas. Ou melhor, para ver se eu não tinha mentido sobre algo tão sério. Aquilo era uma prova moral. Um teste de hombridade que separava os meninos maus que mentiam, dos meninos-homens responsáveis rebobinadores de fitas. Lembro do dia que presenciei um garoto que levou uma fita não rebobinada. Diante de tamanha afronta, a mocinha do balcão foi chamar alguém lá dos “fundos” para contar que uma das fitas não estava rebobinada. Era um cara alto e magro, careca, e já chegou questionando o fedelho: “Você está entregando uma fita rebobinada e outra não. Por que?”. Pensei: “Puta que pariu, agora além da multa você vai ter que justificar na frente de todo mundo o PORQUE da fita não rebobinada”. O que seria plausível, minimamente aceitável como justificativa numa situação dessas? Dizer: “Desculpe, minha mãe teve um AVC pouco depois do filme acabar, ai tive que passar aqui para devolver o filme antes de ir ao hospital, e por acidente esqueci de rebobinar a fita”. Seria suficiente? Bem... não sei. Preferiria nem pensar a respeito. Aliás, preferia, de qualquer maneira, rebobinar a fita.